A coragem de fazer o que nunca foi feito.
Por décadas, São João de Meriti, com quase 500 mil habitantes, viveu o descaso de não ter um hospital próprio para cirurgias e internações. O antigo PAM Meriti era insuficiente: atendia apenas 50 pessoas por dia e fechava à noite.

Urgência e emergência não são competência municipal. A responsabilidade dos municípios, por lei, é a atenção básica à saúde — postos de saúde, programas de prevenção, saúde da família. Hospitais de média e alta complexidade são atribuição do Estado e da União.
Mesmo assim, em 2019, tomamos a decisão de ir além do que era nossa obrigação. Iniciamos a transformação completa do PAM Meriti em Hospital Municipal, o primeiro da história de São João de Meriti.
A decisão foi técnica e humana ao mesmo tempo. Como médico com quase 50 anos de prática, eu sabia o que significava um morador de Meriti precisar ser transferido para Saracuruna, longe da família, para conseguir um leito de UTI. Isso não era aceitável.
A pandemia mudou os planos, mas não o projeto.
Em outubro de 2019, o PAM fechou para reforma. Todo o atendimento foi transferido para a UPA do Jardim Íris. As obras avançavam quando, em 2020, a pandemia de COVID-19 chegou.
O que poderia ser um obstáculo se transformou em urgência. Antecipamos a abertura do primeiro andar em 20 de maio de 2020, com 30 leitos de UTI habilitados pelo Ministério da Saúde — tornando São João de Meriti o primeiro município do Estado do Rio de Janeiro a credenciar leitos de UTI para tratamento da COVID-19.

Com as obras concluídas e o hospital inaugurado oficialmente em 20 de dezembro de 2024, São João de Meriti passou a contar com uma estrutura que antes só existia em hospitais privados da região:
- 63 leitos para clínica médica
- 22 leitos de CTI para pacientes graves
- 20 leitos para enfermaria oncológica
- Centro cirúrgico completo
- Unidade Intermediária
- Sala vermelha e sala amarela de emergência
- Centro de Imagem com tomógrafo, ressonância magnética, ultrassonografia, mamografia e densitometria óssea — realizando cerca de 140 exames por dia
- Laboratório central de última geração (Humaniza Lab)
- Centro de Hemodinâmica
- Cozinha industrial
- Centro de estudo e auditório
- Quatro elevadores e total acessibilidade
Tudo isso em um prédio de quatro andares, funcionando 24 horas por dia, regulado pelo Estado e integrado ao SUS.

O impacto do Hospital Municipal de São João de Meriti vai além das fronteiras do município. A diretora técnica do Consórcio Intermunicipal da Baixada Fluminense (Cisbaf) reconheceu publicamente: a unidade é importante não só para São João, mas para toda a Baixada.
Em uma região historicamente sub-assistida em saúde de média e alta complexidade, ter um hospital municipal dessa magnitude é um divisor de águas. Menos filas. Menos transferências. Menos famílias separadas em momentos críticos.
Construir o primeiro hospital municipal de São João de Meriti foi a realização de um sonho que a cidade esperava há mais de 20 anos. Foi também a prova de que gestão técnica, com olhar humano e coragem para ir além das obrigações legais, transforma realidades.
Não era nossa competência. Mas era nossa responsabilidade.
E nada resiste ao trabalho.