Biografia

De Retirante da Seca a Prefeito Transformador: A Trajetória de Superação e Legado de João Ferreira Neto

A história do Brasil é, muitas vezes, forjada pela força daqueles que precisam cruzar o país em busca de sobrevivência. Em 1950, o Nordeste brasileiro enfrentava uma das piores e mais devastadoras secas de sua história, um cenário de terra rachada e desesperança que expulsou milhares de famílias de seus lares. Foi exatamente nesse ano que João Ferreira Neto, então com apenas oito meses de idade, chegou ao Rio de Janeiro. Sua jornada, que começou em meio à escassez mais absoluta, transformou-se em uma das trajetórias mais notáveis da medicina e da política na Baixada Fluminense.

A Fuga da Seca e o Preço da Travessia

A decisão de deixar o Ceará não foi fácil, mas era a única alternativa viável. O pai de João, descrito como um homem de espírito corajoso e aventureiro, tomou as rédeas do destino da família de forma drástica. Para financiar a fuga da miséria iminente, ele vendeu a pequena bodega que mantinha em Fortaleza. A esse valor, somou as economias suadas de anos de trabalho árduo na extração de borracha no coração do Amazonas. Com o dinheiro em mãos, a família embarcou em um navio com destino à então capital federal, o Rio de Janeiro, em busca de um recomeço. No entanto, a viagem cobrou um pedágio altíssimo, um custo que dinheiro nenhum no mundo poderia pagar. Lenilce, a irmã mais velha de João, com apenas dois anos e três meses, não resistiu. Portadora de um problema cardíaco, seu pequeno coração não suportou as agruras e o cansaço da travessia marítima. A família desembarcou no Rio de Janeiro não apenas com a bagagem escassa de retirantes, mas carregando o luto profundo e a dor indescritível da perda de uma filha. Instalaram-se em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, acolhidos pela solidariedade de uma senhora portuguesa que lhes cedeu uma casa para os primeiros dias.

Raízes na Baixada e o Valor do Trabalho

​O luto não paralisou o patriarca da família. A necessidade de colocar comida na mesa falava mais alto. O pai de João trabalhou incansavelmente: foi servente de pedreiro nas construções civis e, posteriormente, camelô em feiras livres, onde vendia carne seca para garantir o sustento. Aos poucos, com muito suor e economia, conseguiu comprar um modesto terreno na Rua Délia Chávez, localizada no bairro da Califórnia. Ali, ergueu com as próprias mãos uma "meia-água", que se tornaria o lar definitivo e o endereço onde nasceriam os outros irmãos de João: Jorge, Tancaros, Fátima e Marcos. ​João cresceu observando essa rotina implacável de trabalho. Aprendeu desde muito cedo que, para quem vem de baixo, não existem atalhos. Com apenas dez ou onze anos de idade, já assumia responsabilidades dentro de casa, ajudando na criação dos irmãos mais novos para que os pais pudessem trabalhar. Mas, mesmo em meio à lida diária, uma convicção já estava enraizada na mente do menino: a educação formal seria a única ferramenta capaz de quebrar o ciclo de pobreza e mudar o destino de sua família.

​A Batalha pela Educação e o Sonho da Medicina

​O caminho escolar foi repleto de obstáculos. Eram tempos de métodos rígidos e João chegou a sofrer punições físicas na escola, conhecendo a temida palmatória. Como se não bastasse, ao chegar em casa com as marcas do castigo, ainda levava broncas da mãe, refletindo a cultura disciplinar da época. Contudo, nada disso o afastou dos livros. Concluiu o curso ginasial no tradicional Colégio Iguaçuano e, ainda na adolescência, tomou a decisão que pautaria sua vida: seria médico. ​O anúncio da vocação gerou conflito em casa. Seu pai, preocupado com a estabilidade financeira e conhecendo a realidade da família, tentou persuadi-lo a cursar Contabilidade. Afinal, era a profissão "da moda", considerada muito mais segura e viável para jovens sem recursos financeiros. Mas João era obstinado. Colocou o jaleco branco na cabeça e ninguém foi capaz de tirar. ​Para custear o cursinho pré-vestibular, que era o passaporte necessário para disputar uma vaga em Medicina, conseguiu um emprego no Banco da Bahia, na região da Candelária, no efervescente centro do Rio de Janeiro. A rotina era exaustiva: trabalhar o dia todo e estudar à noite. O esforço foi recompensado com a aprovação na Faculdade de Medicina de Petrópolis. Começava ali um novo teste de resistência. Para não perder uma única aula, João subia e descia a sinuosa e perigosa Serra de Petrópolis todos os dias, uma rotina desgastante que poucos estudantes suportariam. ​Para pagar as mensalidades da faculdade de Medicina, ele precisou se reinventar. Tornou-se professor, ministrando aulas de Química Orgânica em colégios e em grandes cursinhos pré-vestibulares. Era um excelente professor, carismático e didático, o que lhe rendia boas remunerações e filas de alunos querendo assistir às suas aulas. ​A surpresa geral veio logo após a formatura. Ganhando muito bem como professor, João decidiu abandonar as salas de aula e o salário confortável para aceitar uma modesta bolsa de residência médica no Hospital Carlos Chagas. Colegas e amigos o chamaram de louco. A resposta dele, porém, era simples e irrefutável: seu objetivo de vida nunca foi ser professor; sua missão era ser médico.

O Cirurgião que Escolheu Salvar Vidas

A vida pessoal também tomava forma. João casou-se com Olga, o amor que conheceu ainda nos tempos de cursinho e por quem se apaixonou à primeira vista. Com o nascimento de Fábio, o primeiro filho do casal, as responsabilidades financeiras multiplicaram-se. Para sustentar a família e se estabelecer na carreira, João abdicou do descanso. Fez plantões ininterruptos, cobrindo todos os finais de semana, feriados, recessos de carnaval e festas de Natal. Essa imersão total na prática médica o forjou como um dos mais respeitados e habilidosos cirurgiões de toda a Baixada Fluminense. ​Em sua longa carreira nos centros cirúrgicos, um caso tornou-se o grande emblema de sua dedicação. Um homem deu entrada na Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima em estado crítico, após uma violenta colisão de seu Fusca contra uma vaca na estrada. O paciente apresentava um quadro gravíssimo de trauma abdominal e torácico. João liderou uma cirurgia épica e exaustiva que durou quatorze horas ininterruptas, exigindo a transfusão de dezessete frascos de sangue. Após quarenta e cinco dias lutando pela vida no Centro de Terapia Intensiva (CTI), o paciente sobreviveu. Três meses depois, o homem retornou ao hospital caminhando para agradecer à equipe. João mal pôde reconhecê-lo tamanho era o milagre da recuperação. A comemoração no corredor do hospital com as enfermeiras cristalizou o que sempre moveu o Dr. João: o privilégio de ver a vida vencendo a morte. ​A sede de conhecimento nunca cessou. Em 2002, prestou concurso para a Polícia Civil e foi aprovado em brilhante 11º lugar para o cargo de perito legista. Atuou nos Institutos Médico Legais (IMLs) do Centro do Rio, de Campo Grande e de Nova Iguaçu, onde exerceu a chefia por quatro anos. O estudo aprofundado da anatomia humana nas mesas de necropsia aprimorou ainda mais sua precisão técnica, tornando-o um cirurgião de excelência. Entre 2004 e 2008, sempre em busca de expansão intelectual, cursou e concluiu o Bacharelado em Direito pela Universidade da Cidade. Leitor voraz, costuma comprar mais livros do que o tempo lhe permite ler e é presença constante em congressos e publicações científicas. Para ele, o conhecimento nunca foi uma linha de chegada, mas sim uma estrada contínua.

​A Política como Extensão do Cuidado

​A entrada na vida pública ocorreu de forma orgânica, pela porta que ele melhor conhecia: a saúde. Reconhecido por operar e salvar pacientes muitas vezes a pedido de lideranças locais da Baixada que não encontravam vagas no sistema público, sua competência chamou a atenção. O então prefeito de São João de Meriti, Antônio de Carvalho, o convidou para assumir a Secretaria Municipal de Saúde. João aceitou o desafio e promoveu uma verdadeira revolução. A base de todo o sistema do Sistema Único de Saúde (SUS) que opera no município até os dias de hoje foi desenhada e implantada por ele durante aquele primeiro mandato. ​Sua capacidade de gestão o levou a retornar ao cargo de Secretário de Saúde em duas outras ocasiões (1998 a 2000 e 2005 a 2007). O reconhecimento popular nas urnas era apenas uma questão de tempo. Em 2007, elegeu-se Vereador com 3.769 votos. Em 2014, alçou voos maiores e chegou a Brasília, eleito Deputado Federal com expressivos 65.624 votos. O coroamento de sua trajetória política veio em 2016, quando foi eleito Prefeito de São João de Meriti logo no primeiro turno, com 115.403 votos. O excelente índice de aprovação de sua gestão garantiu sua reeleição em 2020, com 122.151 votos, o que representou o apoio de 56,83% do eleitorado local.

O Diagnóstico e a Transformação de São João de Meriti

Quando assumiu a prefeitura em janeiro de 2017, João deparou-se com o que ele chamaria, na linguagem médica, de um paciente terminal. O diagnóstico administrativo era aterrador: servidores amargavam onze folhas de pagamento atrasadas; a frota escolar contava com seis ônibus apodrecendo em uma garagem particular por falta de pagamento; a UPA do bairro Jardim Íris estava de portas fechadas há quatro longos anos; o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) dispunha de apenas um veículo, que ainda por cima estava quebrado; e o antigo Posto de Assistência Médica (PAM) encontrava-se fechado, sucateado e abandonado. Acostumado a atuar em emergências, o prefeito arregaçou as mangas. O legado deixado ao final de oito anos de gestão reescreveu a história do município. Na área da Saúde, as entregas foram expressivas: Aquisição de 24 ambulâncias zero quilômetro, todas com equipes completas. Inauguração do Hospital Municipal, equipado com uma UTI de 22 leitos e setor de hemodinâmica. Abertura da Maternidade do Morrinho, contando com 20 leitos de UTI neonatal para salvar recém-nascidos. Inauguração da UPA Infantil. Expansão gigantesca da atenção básica: de 22 para 103 equipes do Programa Saúde da Família (PSF). Construção do Centro de Reabilitação, apontado como o mais moderno da Baixada Fluminense. Implementação de um Centro de Oncologia no coração da cidade, evitando que pacientes com câncer precisassem viajar horas em busca de tratamento. O marco histórico: Em 2019, São João de Meriti alcançou a posição de segunda cidade de todo o Brasil (entre municípios com mais de 200 mil habitantes) que mais investiu recursos próprios em saúde pública. A Educação também passou por um tratamento de choque: A rede municipal saltou de 19 mil para impressionantes 34 mil alunos matriculados. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) saltou de 3.6 para 5.4, coroando um crescimento contínuo de 16 anos na cidade. Nove novas escolas e creches foram construídas do zero e entregues à população. Na Economia e Geração de Renda: A gestão viabilizou a chegada de gigantes da logística e do comércio eletrônico, como Amazon, Mercado Livre e Prologis. A instalação dessas empresas gerou mais de quatro mil empregos com carteira assinada diretamente para os moradores locais. A maior prova de fogo de sua administração, contudo, viria com a pandemia de Covid-19. No auge da crise sanitária, quando São João de Meriti chegou a ser apontado estatisticamente como o pior município do estado do Rio de Janeiro em números de obituário, a experiência clínica do prefeito falou mais alto. Sob sua batuta, a cidade foi a primeira do estado a conseguir o credenciamento de 30 leitos de UTI exclusivas junto ao Ministério da Saúde. O esforço logístico e médico foi tão extraordinário que atraiu a atenção da imprensa internacional. Equipes de televisão dos Estados Unidos, da China e da Europa desembarcaram na Baixada Fluminense para documentar o trabalho hercúleo da secretaria municipal. O resultado direto dessa ação rápida foi a salvação de milhares de vidas meritenses. João Ferreira Neto sempre gostou de ver o resultado imediato do próprio suor. Foi exatamente por essa urgência em fazer a diferença que, na juventude, escolheu a cirurgia geral como especialidade: é a área onde o médico opera, intervém diretamente no problema, resolve a patologia e observa o paciente voltar a viver. Foi exatamente com essa mesma filosofia cirúrgica que ele comandou a Prefeitura de São João de Meriti. Ele diagnosticou os problemas crônicos que sangravam a cidade e entregou soluções estruturais reais para estancar a crise. Como gostam de dizer aqueles que acompanham sua jornada desde o tempo em que vendia carne seca na feira: não se trata de sorte ou de coincidência. É, antes de tudo, caráter.